Prática Deliberada - História e Investigação

O estudo do que distingue os profissionais de topo dos seus pares é um tema de inegável interesse tanto para cientistas como para a comunidade geral. Mais recentemente, o estudo da "expertise" tem sofrido avanços consideráveis e com grande impacto no modo como entendemos e formamos os nossos profissionais. Sendo este campo de investigação muito vasto e em expansão contínua, ir-nos-emos focar nos contributos mais relevantes para a prática psicoterapêutica e, antes de mais, numa das suas figuras pioneiras: o professor e investigador K. Anders Ericsson, da Florida State University.

K. Anders Ericsson

Ao longo das últimas décadas, Ericsson e colaboradores têm investigado profissionais de alto desempenho em áreas tão variadas como o desporto, o xadrez ou a música. Estes estudos procuram entender quem são os profissionais considerados “experts” na sua área, e como atingiram o alto desempenho que os caracteriza. [1, 2Com base nesta linha de investigação, vários factores comuns entre “experts” de diferentes áreas foram propostos, como o facto de estes terem uma capacidade de tomada de decisão superior tanto ao nível de decisões deliberadas como intuitivas. [3] 

A característica mais estudada e comum aos profissionais de desempenho superior é a existência de “práctica deliberada”. Isto é, estes profissionais passam mais tempo a identificar áreas específicas onde o seu desempenho falha, a procurar o apoio de outros profissionais, a reflectir sobre o feedback recebido, e a desenvolver, ensaiar, executar e avaliar planos com o intuito de melhorar o seu desempenho pessoal, monitorizando o seu progresso ao longo do tempo. A práctica deliberada é teorizada como um dos principais factores característicos dos profissionais de desempenho superior. [41, 5, 6]

Numerosos estudos têm vindo a demonstrar a validade deste construto para um conjunto alargado de actividades profissionais, apoiando a hipótese de que a prática deliberada está instinsecamente ligada ao desenvolvimento de desempenho superior. [17, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16] 

A Figura 1 representa uma típica curva de relação estabelecida entre o número de horas passadas em prática delibarada e o desempenho do profissional.

 

Figura 1. O impacto da prática deliberada no desempenho de violinistas (Ericsson, 2006)[4]

 

Mesmo no caso de crianças naturalmente dotadas, tanto a nível físico como psicológico, estas tendem a atingir um desempenho superior gradualmente, envolvendo quantidades prolongadas de prática deliberada ao longo de muitos anos. Alcançar este desempenho exige centenas, senão mesmo milhares, de horas de prática deliberada. Malcolm Gladwell popularizou, no seu livro Outliers, a "regra das 10000 horas de treino", referindo-se ao suposto tempo médio necessário para dominar qualquer área de trabalho. No entanto, a investigação disponível diz-nos que o número de horas dispendidas em prática deliberada e necessárias para atingir um desempenho superior varia significativamente entre áreas de trabalho.[4]

 

 

Os estudos da "expertise" e da prática deliberada chegaram recentemente à atenção de importantes investigadores de psicoterapia que, nos últimos anos, se têm vindo a questionar sobre a importância destes construtos para o contexto psicoterapêutico. [17, 18, 19, 20

 

O primeiro estudo a investigar o impacto da prática deliberada sobre o desempenho psicoterapêutico surge em 2015. Chow e colaboradores [21] avaliaram a relação entre os resultados clínicos de uma amostra de terapeutas com um conjunto de variáveis profissionais e pessoais, entre as quais a existência e quantidade de prática deliberada. Como em estudos anteriores, o sexo, idade e anos de experiência clínica não se relacionaram significativamente com os resultados clínicos obtidos. [22, 23, 24] Por outro lado, e à semelhança dos resultados relatados na literatura especializada [1, 4]a quantidade de tempo que os terapeutas passaram em atividades de prática deliberada foi um preditor significativo dos resultados clínicos finais. 

O impacto cumulativo da prática deliberada sobre a eficácia clínica, como estudado por Chow et al., pode ser visto na Figura 2. Neste estudo, os terapeutas no quartil superior de eficácia investiram, em média, quase 2,8 vezes mais tempo em actividades de prática deliberada do que os restantes profissionais. Note-se a relação directa entre a prática deliberada dos terapeutas e os resultados obtidos.

 

Figura 2. Relação entre horas de prática deliberada e resultados terapêuticos (Chow et al., 2015)[21]

 

Este estudo pioneiro fornece provas preliminares da importância da prática deliberada como um construto valioso para explicar a grande variabilidade de resultados entre terapeutas, como do seu potencial decisivo para o futuro do treino e supervisão em psicoterapia. [231720]

Outro estudo por Goldberg et al. investigou longitudinalmente o impacto da monitorização de resultados clínicos e prática deliberada na eficácia geral de uma amostra de terapeutas. [25] Os dados recolhidos ao longo de 7 anos dizem respeito a 153 terapeutas e os 5128 pacientes que acompanharam. Ao contrário de estudos anteriores com as mesmas condições excepto o uso de prática deliberada [22], os terapeutas deste estudo tenderam a melhorar consistentemente a sua eficácia clínica ao longo dos anos. Estes resultados forneceram suporte adicional à importância da prática deliberada do terapeuta como mediador de resultados clínicos. No entanto, o estudo da prática deliberada em psicoterapia é tão recente que podemos apenas considerar estes resultados como dados preliminares.

 

Dois manuais por Tony Rousmaniere foram já publicados como potenciais protocolos para a implementação da prática deliberada em contextos psicoterapêuticos. [26, 27Os leitores são também convidados a ver a seguinte entrevista com o autor destes manuais: https://youtu.be/eR5OQ_mWros

 

Clique no ícone seguinte para começar a estabelecer uma rotina de prática deliberada em psicoterapia:

 

 

Livros:

  • Ericsson, K. A., Charness, N., Feltovich, P. J., & Hoffman, R. R. (Eds.). (2006). The Cambridge handbook of expertise and expert performance. Cambridge University Press.
  • Ericsson, A., & Pool, R. (2016). Peak: Secrets from the new science of expertise. Houghton Mifflin Harcourt.
  • Rousmaniere, T. (2016). Deliberate Practice for Psychotherapists: A Guide to Improving Clinical Effectiveness. Taylor & Francis.
  • Rousmaniere, T., Goodyear, R. K., Miller, S. D., & Wampold, B. E. (Eds.). (2017). The cycle of excellence: Using deliberate practice to improve supervision and training. John Wiley & Sons.

 

Artigos (clicar para aceder):

[1] Ericsson, K. A., Krampe, R. T., & Tesch-Römer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological review, 100(3), 363.

[2] Ericsson, K. A., Charness, N., Feltovich, P. J., & Hoffman, R. R. (Eds.). (2006). The Cambridge handbook of expertise and expert performance. Cambridge University Press.

[3] Moxley, J. H., Ericsson, K. A., Charness, N., & Krampe, R. T. (2012). The role of intuition and deliberative thinking in experts’ superior tactical decision-making. Cognition, 124(1), 72-78.

[4] Ericsson, K. A. (2006). The influence of experience and deliberate practice on the development of superior expert performance. In K. A. Ericsson, N. Charness, P. J. Feltovich, & R. R. Hoffman (Eds.), The Cambridge handbook of expertise and expert performance (p. 683–703). Cambridge, UK: Cambridge University Press.

[5] Ericsson, K. A., Nandagopal, K., & Roring, R. W. (2009). Toward a science of exceptional achievement. Annals of the New York Academy of Sciences, 1172(1), 199-217. 

[6] Ericsson, K. A., & Charness, N. (1994). Expert performance: Its structure and acquisition. American psychologist, 49(8), 725.

[7] Krampe, R. T., & Ericsson, K. A. (1996). Maintaining excellence: deliberate practice and elite performance in young and older pianists. Journal of experimental psychology: general, 125(4), 331.

[8] F. Helsen, W., Hodges, N. J., Winckel, J. V., & Starkes, J. L. (2000). The roles of talent, physical precocity and practice in the development of soccer expertise. Journal of sports sciences, 18(9), 727-736.

[9] Dunn, T. G., & Shriner, C. (1999). Deliberate practice in teaching: What teachers do for self-improvement. Teaching and teacher education, 15(6), 631-651.

[10] Ericsson, K. A. (2004). Deliberate practice and the acquisition and maintenance of expert performance in medicine and related domains. Academic medicine, 79(10), S70-S81.

[11] Charness, N., Tuffiash, M., Krampe, R., Reingold, E., & Vasyukova, E. (2005). The role of deliberate practice in chess expertise. Applied Cognitive Psychology, 19(2), 151-165.

[12] Keith, N., & Ericsson, K. A. (2007). A deliberate practice account of typing proficiency in everyday typists. Journal of Experimental Psychology: Applied, 13(3), 135.

[13] McGaghie, W. C., Issenberg, S. B., Cohen, M. E. R., Barsuk, J. H., & Wayne, D. B. (2011). Does simulation-based medical education with deliberate practice yield better results than traditional clinical education? A meta-analytic comparative review of the evidence. Academic medicine: journal of the Association of American Medical Colleges, 86(6), 706.

[14] Hashimoto, D. A., Sirimanna, P., Gomez, E. D., Beyer-Berjot, L., Ericsson, K. A., Williams, N. N., ... & Aggarwal, R. (2015). Deliberate practice enhances quality of laparoscopic surgical performance in a randomized controlled trial: from arrested development to expert performance. Surgical endoscopy, 29(11), 3154-3162.

[15] Platz, F., Kopiez, R., Lehmann, A. C., & Wolf, A. (2014). The influence of deliberate practice on musical achievement: a meta-analysis. Frontiers in psychology, 5.

[16] Hunt, E. A., Duval-Arnould, J. M., Nelson-McMillan, K. L., Bradshaw, J. H., Diener-West, M., Perretta, J. S., & Shilkofski, N. A. (2014). Pediatric resident resuscitation skills improve after “rapid cycle deliberate practice” training. Resuscitation, 85(7), 945-951.

[17] Miller, S. D., Hubble, M. A., Chow, D. L., & Seidel, J. A. (2013). The outcome of psychotherapy: yesterday, today, and tomorrow. Psychotherapy, 50(1), 88-97.

[18] Tracey, T. J., Wampold, B. E., Lichtenberg, J. W., & Goodyear, R. K. (2014). Expertise in psychotherapy: An elusive goal?. American Psychologist, 69(3), 218.

[19] Hill, C. E., Spiegel, S. B., Hoffman, M. A., Kivlighan Jr, D. M., & Gelso, C. J. (2017). Therapist expertise in psychotherapy revisited ψ. The Counseling Psychologist, 45(1), 7-53.

[20] Goodyear, R. K., Wampold, B. E., Tracey, T. J., & Lichtenberg, J. W. (2017). Psychotherapy expertise should mean superior outcomes and demonstrable improvement over time. The Counseling Psychologist, 45(1), 54-65.

[21] Chow, D. L., Miller, S. D., Seidel, J. A., Kane, R. T., Thornton, J. A., & Andrews, W. P. (2015). The role of deliberate practice in the development of highly effective psychotherapists. Psychotherapy, 52(3), 337.

[22] Goldberg, S. B., Rousmaniere, T., Miller, S. D., Whipple, J., Nielsen, S. L., Hoyt, W. T., & Wampold, B. E. (2016). Do psychotherapists improve with time and experience? A longitudinal analysis of outcomes in a clinical setting. Journal of Counseling Psychology, 63(1), 1.

[23] Wampold, B. E., & Brown, G. S. J. (2005). Estimating variability in outcomes attributable to therapists: a naturalistic study of outcomes in managed care. Journal of consulting and clinical psychology, 73(5), 914.

[24] Anderson, T., Ogles, B. M., Patterson, C. L., Lambert, M. J., & Vermeersch, D. A. (2009). Therapist effects: Facilitative interpersonal skills as a predictor of therapist success. Journal of clinical psychology, 65(7), 755-768.

[25] Goldberg, S. B., Babins-Wagner, R., Rousmaniere, T., Berzins, S., Hoyt, W. T., Whipple, J. L., ... & Wampold, B. E. (2016). Creating a climate for therapist improvement: A case study of an agency focused on outcomes and deliberate practice. Psychotherapy, 53(3), 367.

[26] Rousmaniere, T. (2016). Deliberate Practice for Psychotherapists: A Guide to Improving Clinical Effectiveness. Taylor & Francis.

[27] Rousmaniere, T., Goodyear, R. K., Miller, S. D., & Wampold, B. E. (Eds.). (2017). The cycle of excellence: Using deliberate practice to improve supervision and training. John Wiley & Sons.

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