Prática Deliberada - História e Investigação

Ericsson e colaboradores (1994, 2006) há décadas que estudam profissionais de alto desempenho em áreas tão variadas como o desporto, o xadrez ou a música. Estes estudos procuram entender quem são os profissionais considerados “experts”, e como atingiram o alto desempenho que os caracteriza. Através destes estudos, vários factores comuns entre “experts” de diferentes áreas foram propostos – como o facto de estes terem uma capacidade de tomada de decisão avançada tanto ao nível de decisões deliberadas como intuitivas (Moxley et al., 2012). Outra característica muito estudada, comum aos profissionais de desempenho superior, é a existência de “práctica deliberada” (Ericsson, 2009) – isto é, os profissionais de desempenho superior passam mais tempo a reflectir sobre o feedback recebido, a identificar onde é que o seu desempenho falha, a procurar o apoio de outros profissionais, e a desenvolver, ensaiar, executar e avaliar planos com o intuito de melhorar o desempenho pessoal. A práctica deliberada é teorizada como um dos principais factores característicos dos profissionais de desempenho superior (Ericsson et al., 2006; Ericsson, Nandagopal & Roring, 2009; Ericsson & Charness, 1994).

 

Desde então, numerosos estudos demonstraram a validade deste construto, sugerindo que a prática deliberada é uma das características distintivas de profissionais de desempenho superior (Ericsson et al., 1993; Krampe & Ericsson, 1996; Starkes et al., 1996; Dunn & Shriner, 1999; Ericsson, 2004; Charness et al., 2005; Keith & Ericsson, 2007; Duckworth et al., 2011; McGaghie et al., 2011; Hashimoto et al., 2015). Esta linha de investigação chegou recentemente à atenção de importantes investigadores de psicoterapia, que nos últimos anos têm vindo a questionar-se se a importância da prática deliberada seria replicada no contexto da psicologia clínica (Miller et al., 2013; Tracey et al., 2014; Wampold, 2015).

 

Os estudos de desempenho superior têm influenciado, nos últimos anos, alguma investigação na área da psicoterapia (Miller et al., 2013; Chow, 2014; Chow et al., 2015; Hansen, Lambert & Vlass, 2015a). A premissa adoptada por estes investigadores é que, de modo a entender os processos que levam a melhores resultados em psicoterapia, é necessário estudar os terapeutas que demonstram resultados consistentemente superiores – por vezes apelidados de “supershrinks” (Okiishi et al., 2003).
O primeiro grande desafio em encontrar estes “supershrinks”, de modo a estudá-los, é o seguinte: no geral, os psicoterapeutas acham-se mais eficazes do que, de facto, são. No estudo por Walfish et al. (2012), 25% dos terapeutas envolvidos consideraram-se no percentil 90 de eficácia clínica, comparando-se aos seus pares, nunca se auto-avaliando como abaixo da média em termos de eficácia clínica. Estes dados sugerem que o auto-relato do terapeuta não é um modo eficaz de monitorização de resultados em psicoterapia. Como tal, é necessário encontrar formas cientificamente rigorosas de identificar os terapeutas de desempenho superior. O uso de sistemas de monitorização de resultados – também chamados de sistemas de feedback – são uma solução possível para este problema (Lambert, 2010).

 

O primeiro estudo a investigar o impacto da prática deliberada sobre o desempenho psicoterapêutico surge em 2015. Chow e colaboradores (2015) avaliaram a relação entre os resultados clínicos de uma amostra de terapeutas com um conjunto de variáveis profissionais e pessoais, entre as quais a existência e quantidade de prática deliberada. Como em estudos anteriores, o sexo, idade, anos de experiência, número de sessões com os clientes e auto-avaliação de eficácia clínica não estavam relacionados aos resultados clínicos obtidos (Lambert, 2013; Walfish et at., 2012). Em consonância com os resultados relatados na literatura especializada (Ericsson et al., 2006), a quantidade de tempo que os terapeutas passaram em atividades de prática deliberada foi um preditor significativo dos resultados clínicos finais. Este primeiro estudo foi realmente revolucionário, por introduzir um construto (“prática deliberada”) que poderá não só ajudar a explicar a variabilidade de resultados entre terapeutas (Wampold & Brown, 2005), como ter um impacto decisivo para o futuro do treino e supervisão em psicoterapia.
O único outro estudo neste tema foi um estudo de implementação de monitorização contínua de resultados clínicos e prática deliberada numa clínica (Goldberg, Babins-Wagner et al., 2016). Ao longo de 7 anos, 153 terapeutas intervirão em 5128 pacientes. Ao contrário de estudos anteriores com as mesmas condições excepto o uso de prática deliberada (Goldberg, Rousmaniere et al., 2016), os terapeutas neste novo estudo tenderam a melhorar consistentemente a sua eficácia clínica ao longo dos anos – dando suporte adicional aos resultados pioneiros de Chow e colaboradores (2015).
Esta linha de investigação é tão recente que, neste momento, podemos apenas considerar estes resultados recentes como dados preliminares. Dois livros foram já publicados como potenciais protocolos para a implementação de prática deliberada em contextos psicoterapêuticos (Rousmaniere, 2016; Rousmaniere et al., 2017).

 

Sabemos que simplesmente trabalhar mais horas não é suficiente para explicar melhores desempenhos (Miller et al., 2015; Tracey et al., 2014; Hambrick et al., 2014). 

 

 

Livros:

 

Artigos (clicar para aceder):

 

 

 

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[1] Lambert, M. J. (2013). Introduction and historical overview. In M. J. Lambert (Ed.), Bergin and Garfield’s handbook of psychotherapy and behavior ch

 

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