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Prática Deliberada

O que é a Prática Deliberada?

 

É o treino sistemático de atividade focado na monitorização rigorosa do desempenho do profissional ao longo do tempo.
Envolve a identificação de áreas onde este desempenho falha, receber feedback de especialistas e instrumentos, refletir sobre a avaliação recebida, e desenvolver, ensaiar, executar e avaliar um plano de melhoria

 

A prática deliberada é hoje reconhecida como possivelmente a variável mais relevante para o desenvolvimento de "expertise" ou desempenho superior em qualquer área de trabalho. A sua importância já foi demonstrada em áreas tão distintas como o desporto, a medicina, a música, o xadrez e, mais recentemente, a prática psicoterapêutica. O seu pressuposto central é que o desempenho superior, ou "expertise", é adquirido gradualmente através do investimento em tarefas de treino que o indivíduo possa dominar sequencialmente. Geralmente, o planear e avaliar destas tarefas é feito com o apoio de um professor ou coach. [1]

 

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Tradicionalmente, vários sistemas de ensino têm-se focado quase exclusivamente no acumular de conhecimento, por exemplo através da leitura, deixando muitas vezes o aluno com a tarefa de aplicar esse conhecimento por si. No entanto, Norcross et al. destacam que saber sobre psicoterapia é muito diferente de saber fazer psicoterapia. Segundo estes autores, é possível ser-se um "expert" sobre psicoterapia sem que isso queira dizer que se é um terapeuta eficaz, já que conhecimento teórico e aplicação prática são duas actividades muito distintas, ainda que complementares. [2Ao contrário do ensino mais tradicional, a prática deliberada foca-se no desempenho do profissional e em modos de o melhorar fiavelmente. Para este fim, são criadas tarefas que servem o propósito de refinar gradualmente o seu desempenho através de repetições, feedback e monitorização continuada. Estas tarefas são altamente individualizadas, criadas especificamente para o profissional em causa e focadas nas suas competências ainda por desenvolver. [31]

 

Figura 1. Os 4 pilares da Prática Deliberada (Rousmaniere et al., 2017) [14]

 

Talvez controversamente, a investigação em psicoterapia tem vindo repetidamente a demonstrar a inexistência de correlação significativa entre os anos de experiência terapêutica e os resultados obtidos. [456] Embora uma grande parte dos terapeuta acredite estar a melhorar o seu desempenho ao longo do tempo, esta auto-avaliação é frequentemente enviesada ou mesmo incorrecta. [789] Com efeito, simplesmente trabalhar mais horas não é o suficiente para explicar melhores desempenhos profissionais. 

Por outro lado, é necessário distinguir o conceito de "expertise" ou desempenho superior do de competência, já que a perícia a administrar factores específicos em psicoterapia - como técnicas associadas a modelos específicos - parece não se relacionar com os resultados obtidos. Assim, a "expertise" em psicoterapia define-se não pela mestria nestes ingredientes específicos mas pela obtenção de resultados clínicos mensuráveis consistentemente superiores. [101112]

 

A prática deliberada exige um esforço e foco mental, tal como um investimento pessoal e profissional, bastante superior àquilo a que geralmente designamos de "experiência". A verdadeira prova da sua aplicação bem sucedida não é o número de horas passados a treinar tarefas ou o conhecimento teórico sobre as mesmas, mas sim a avaliação e verificação de resultados demonstravelmente superiores ao longo do tempo. [1312]  

 

Desenvolvimento de instrumentos  de avaliação psicológica

 

Figura 2. O ciclo da prática deliberada (Rousmaniere et al., 2017) [14]


 

 Segue-se uma lista de características fundamentais da prática deliberada (PD). [3, 15]

  1. A PD visa desenvolver habilidades que outros profissionais já aperfeiçaram no passado e para as quais já existem técnicas de treino eficazes.
  2. O regime de PD deve ser co-construído e supervisionado por um professor ou coach que esteja familiarizado com as capacidades a serem treinadas e em modos eficazes de as desenvolver.
  3. A PD ocorre fora da zona de conforto do profissional/estudante, envolvendo-o repetidamente em tarefas que estão ligeiramente para além das suas capacidades actuais. Assim, a PD exige um esforço e foco que geralmente não é fácil ou agradável de suster ao longo do tempo.
  4. A PD envolve o estabelicimento de metas específicas e bem definidas, não se destinando a uma melhoria geral vaga mas sim ao progresso mensurável de uma capacidade concreta. Assim que um objectivo é definido, o professor ou coach desenvolve com o indivíduo um plano focado em atingir uma série de pequenas mudanças que, com o tempo e treino, levarão às mudanças maiores desejadas. 
  5. A PD é deliberada, isto é, requer a atenção plena da pessoa e acções conscientes. Não é suficiente simplesmente seguir as instruções de um professor ou coach. O aluno deve-se concentrar no objetivo específico da sua atividade prática, estando disponível para um processo de auto-avaliação e de avaliação externa.
  6. A PD envolve feedback e modificação de esforços em resposta a esse feedback. No início do processo de treino, grande parte dos comentários virão do professor/coach, que acompanhará o progresso, apontará os problemas e oferecerá maneiras de abordar esses problemas. Com o tempo e experiência, os alunos devem aprender a auto-monitorar-se, detectar erros e ajustar o seu treino adequadamente.
  7. A PD envolve frequentemente a construção ou modificação de habilidades previamente adquiridas, focando-se em aspectos específicos dessas habilidades e trabalhando para aprimorá-las. Com o passar do tempo, esta melhoria passo-a-passo acabará por levar a um desempenho superior na área de trabalho em causa.
  8. Finalmente, a PD é uma actividade potencialmente interminável, sendo repetidamente comprovado pela investigação que os melhores profissionais de cada área tendem a manter uma rotina de treino mesmo após a obtenção de um desempenho superior. Assim, a "expertise" é criada mas também mantida através de uma gestão pessoal contínua ao longo de décadas.

 

Conheça mais sobre a investigação em prática deliberada e como começar a estabelecer uma rotina:

 

 

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Referências

 

[1] Ericsson, K. A. (2006). The influence of experience and deliberate practice on the development of superior expert performance. In K. A. Ericsson, N. Charness, P. J. Feltovich, & R. R. Hoffman (Eds.), The Cambridge handbook of expertise and expert performance (p. 683–703). Cambridge, UK: Cambridge University Press.

[2] Norcross, J. C., & Karpiak, C. P. (2017). Our best selves: Defining and actualizing expertise in psychotherapy. The Counseling Psychologist, 45(1), 66-75.

[3] Ericsson, K. A., Krampe, R. T., & Tesch-Römer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological review, 100(3), 363.

[4] Goldberg, S. B., Rousmaniere, T., Miller, S. D., Whipple, J., Nielsen, S. L., Hoyt, W. T., & Wampold, B. E. (2016). Do psychotherapists improve with time and experience? A longitudinal analysis of outcomes in a clinical setting. Journal of Counseling Psychology, 63(1), 1.

[5] Wampold, B. E., & Brown, G. S. J. (2005). Estimating variability in outcomes attributable to therapists: a naturalistic study of outcomes in managed care. Journal of consulting and clinical psychology, 73(5), 914.

[6] Stein, D. M., & Lambert, M. J. (1984). On the relationship between therapist experience and psychotherapy outcome. Clinical Psychology Review, 4(2), 127-142.

[7] Walfish, S., McAlister, B., O'donnell, P., & Lambert, M. J. (2012). An investigation of self-assessment bias in mental health providers. Psychological Reports, 110(2), 639-644.

[8] Hatfield, D., McCullough, L., Frantz, S. H., & Krieger, K. (2010). Do we know when our clients get worse? An investigation of therapists' ability to detect negative client change. Clinical Psychology & Psychotherapy, 17(1), 25-32.

[9] Hartmann, A., Joos, A., Orlinsky, D. E., & Zeeck, A. (2015). Accuracy of therapist perceptions of patients' alliance: Exploring the divergence. Psychotherapy Research, 25(4), 408-419.

[10] Ahn, H., & Wampold, B. E. (2001). Where oh where are the specific ingredients? A meta-analysis of component studies in counseling and psycotherapy. Journal of Counseling Psychology, 48(3), 251–257.

[11] Messer, S. B., & Wampold, B. E. (2002). Let's face facts: Common factors are more potent than specific therapy ingredients. Clinical Psychology: Science and Practice, 9(1), 21-25.

[12] Goodyear, R. K., Wampold, B. E., Tracey, T. J., & Lichtenberg, J. W. (2017). Psychotherapy expertise should mean superior outcomes and demonstrable improvement over time. The Counseling Psychologist, 45(1), 54-65.

[13] Tracey, T. J., Wampold, B. E., Lichtenberg, J. W., & Goodyear, R. K. (2014). Expertise in psychotherapy: An elusive goal?. American Psychologist, 69(3), 218.

[14] Rousmaniere, T., Goodyear, R. K., Miller, S. D., & Wampold, B. E. (Eds.). (2017). The cycle of excellence: Using deliberate practice to improve supervision and training. John Wiley & Sons.

[15] Ericsson, A., & Pool, R. (2016). Peak: Secrets from the new science of expertise. Houghton Mifflin Harcourt.